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Onde fica o lugar do passado?

  • 2 de mar.
  • 3 min de leitura

Por Terezinha Espinosa | @terezinha_espinosa


ARTE: Andréa Samico
ARTE: Andréa Samico

:: A pergunta que trago como título deste texto desperta em mim um movimento de iluminar memórias. Convido você, leitor, a acompanhar esse percurso e lançar luz sobre as suas próprias lembranças.


Ao observar o passado vou em direção a um tempo e a um lugar repleto de encontros, desencontros, múltiplas vozes e histórias. É um movimento que pressupõe compreender as linguagens nas mensagens, visíveis e invisíveis, captadas pelo meu olhar.


É como ouvir uma música ou o canto dos pássaros; sentir a textura da lã ou o cheiro de um canteiro de flores. Implica mobilizar muitos sentidos. É observar de corpo inteiro, percebendo os contornos da memória. É uma experiência estética que se relaciona com a busca que permeia o passado, o presente e as possibilidades futuras. É, enfim, viver. 


E essa capacidade de olhar só se aprende com as experiências vividas.


Nesse movimento temporal, a vida se faz como um fio de cabelo levado pelo vento que, nos rodopios iluminados pelo sol, encontra uma pena, um fiapo de algodão, outro fio de seda — coisas sem futuro, sem peso, mas que juntas, seguem voando com muitas histórias para contar. 


Percepções que molhadas pela chuva caem numa terra fértil, como as sementes, fazendo nascer novos frutos. E assim a vida vai, se fazendo de histórias que podem ser narradas e recordadas.


Entendo que rememorar é como fazer brilhar os pensamentos nos sentidos simbólicos que minhas lembranças descobrem, compreendem e aprofundam. É evocar as marcas do passado, renovando-as. Assim são as experiências. 


Posso evocá-las nas minhas memórias, compreendê-las e reorganizá-las em novas constelações. Posso lembrar como aprendi a andar de bicicleta, mas não poderei tornar a aprender. Em todas as experiências há sempre possibilidades de aprendizagens nunca esquecidas. 


Escavando minhas lembranças, encontro a criança que cantava, subia na sua amiga árvore, brincava com os bichos do quintal. Hoje, não consigo me aventurar nas árvores, mas trago em mim aquela menina, daquele tempo - e reinvento formas de pensar sobre ela.


Mas o que fazer com as lembranças iluminadas? Talvez, ao compreendê-las e narrá-las, o leitor possa se apropriar - e com outras vozes, elas se tornem novas histórias. 


A narrativa construída a partir da memória está marcada por experiências que evocam saberes singulares e se entrelaçam com fios de outras histórias, que incorporei, pois, nenhuma vivência é solitária. 


Ao escrever produzo dobras que (des)ocultadas revelam para mim, e para o leitor, diversas possibilidades de reflexões. Talvez, seja possível usá-las para captar o movimento de olhar para as recordações, mesmo sabendo que podem revelar certos aspectos e sombrear outros. Assim, dialogar com a luz e a sombra implica reconhecer o valor estético dos elementos presentes nas vivências. 


O olhar que se debruça sobre as memórias busca perceber sentidos, ora densos, ora diluídos.  E ao tornar-se consciente, esse movimento fixa o aqui e agora e desfaz as sombras do passado, tecendo novos significados para aquilo que recordo. 


O simples ato de observar uma fotografia pode produzir um continuum de luz mais clara à sombra mais escura, provocando uma névoa que, às vezes, a circunscreve. Não é possível retroceder, mas rememorar pode abrir caminho para proteger as lembranças e, ao mesmo tempo, ressignificá-las na consciência.


Nada do que aconteceu no passado fica perdido na minha história.





Terezinha Espinosa | @terezinha_espinosa é professora, pedagoga e doutora em educação. Formou professores e dedicou-se às pesquisas com narrativas da infância, a partir das quais publicou livros e artigos. Membro da Academia Teresopolitana de Letras desde 2022, é autora textual do livro infanto-juvenil "Amiga Ca-ram-bo-lei-ra", editado por esta casa editorial.


 
 
 

6 comentários

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há 3 dias
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Minha eterna professora, que texto lindo e reflexão profunda. A sua sensibilidade ao escrever, fazendo-me, e creio eu, aos demais leitores, mergulhamos em nossas próprias memórias. Você sempre tão inspiradora!


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Alinne Mayra
há 7 dias

Querida amiga, tão sensível com sua escrita. Essa escrita tão particular e ao mesmo tempo coletiva que a partir das suas memórias, nos remete as nossas e reviver detalhes tão pequeninos e maravilhosos. Beijos de muita luz!

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Convidado:
04 de mar.

Querida confreira, parabéns pelo sensível texto! O que seríamos nós sem nossas memórias, não é mesmo? Um simples momento no presente pode nos trazer lembranças de um passado longínquo: uma foto, um quadro, um cheiro, um toque... E como é bom recordar momentos felizes e especiais. Lembrar é reviver!

Fernanda Goucher

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Edinar Claussen Corradini
03 de mar.

Amiga confreira ,esse teu olhar em nossas memórias me fez uma massagem no coração e voei nas asas de um pena sob a luz da luae fiquei tão leve ao reviver entre nuvens coloridas da minha infância o mais belo em mim. Obrigada por nos dar essa leveza de nossas lembranças. Que texto gostoso de sensação é sentimentos temporal que você conseguiu tocar meu tempo mais lindo. A minha infância.

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Convidado:
03 de mar.

Caríssima confreira. Parabéns pelo artigo. Um texto belo e muito sensível.

Essa é a ideia: a de que a memória não é um lugar físico, mas uma construção temporal, fluida e poética.

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