O movimento silencioso da transformação
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- há 4 dias
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por Andréa Samico | @andreasamico

:: Costumamos falar de transformação como quem anuncia uma virada brusca: um antes e um depois, um ponto final seguido de um recomeço limpo. Mas, na vida real, a transformação raramente acontece assim. Ela não irrompe, ela se infiltra. É um movimento silencioso, muitas vezes imperceptível, que começa antes mesmo de sabermos nomeá-lo.
Transformar-se não é trocar de pele de uma vez. É permitir que a pele se afine, que fique mais sensível ao mundo, que o vá captando. Aos poucos, em gotas. É quando algo em nós começa a pedir espaço: uma pergunta antiga, um incômodo esquecido, um desejo que não coube por muito tempo na rotina, algo que por tempo demais passou despercebido. A transformação começa, quase sempre, como um sussurro e só depois ganha um corpo que grita.
Há uma ideia equivocada de que mudar exige ruptura total, abandono, radicalidade. Para muitos até é. Não estou aqui para ditar o que funciona ou não para cada um e cravar o significado do que é ou não é uma palavra. Falo de um lugar meu. Para o que venho experimentando do viver, a transformação que irrompe com verdade, costuma ser mais parecida com um deslocamento interno. Um ajuste de eixo. Um pequeno desalinhamento que, com o tempo, muda toda uma paisagem. Ela não exige negação do que fomos, apenas escuta. Porque só quem reconhece a própria história consegue reinventá-la com honestidade.
Pauso aqui para contar uma pequena experiência pessoal. Aos 5 anos, minha mãe olhou para mim e percebeu um deslocamento no meu olho direito. Naquele momento era pequeno, mas suficiente para que meus pais fossem investigar. Descobriram que, além de estrábica, eu era cega. Nasci sem a visão do olho direito. Uma condição rara, congenita e de origem nunca identificada.
Soube desde o primeiro minuto do diagnóstico que da cegueira jamais seria curada, mas que do estrabismo eu poderia me livrar, numa cirurgia estética simples, que eu poderia realizar em qualquer idade, fosse ainda criança ou mais velha. Meus pais não quiseram fazer aquele procedimento na ocasião e eu fui crescendo com o olho cada dia mais deslocado.
“Amo tanto e de tanto amar | Acho que ela é bonita | Tem um olho sempre a boiar | E outro que agita | Tem um olho que não está | Meus olhares evita | E outro olho a me arregalar | Sua pepita”
Durante minha adolescência, eu achava que Chico Buarque tinha feito essa música para mim. Cantava, me divertia, ria do meu “defeito de fábrica” e namorava. Tive uma juventude como tantas garotas da minha idade. Feliz, saudável, agia como se aquilo não me incomodasse. Engravidei muito novinha e tive meu filho em 1986.
Passaram-se 9 anos e um dia, enquanto me arrumava para o trabalho, fiquei por longos minutos parada em frente ao espelho. Olhava-me em detalhes e fui fazendo um zoom da minha própria imagem. Esquadrinhando tudo até estar olho no olho comigo mesma. Nesse minuto eu senti um profundo desconforto com o meu estrabismo e uma urgência tomou conta de mim, como nunca antes. Alguns poucos dias depois desse dia, eu estava fazendo minha cirurgia de estrabismo e parando de uma vez por todas de fingir que aquilo não me incomodava.
Percebam uma coisa: antes de operar meu olho, algo dentro de mim operou-se sozinho. Eu não pensei sobre isso, eu não racionalizei isso, eu não tratei isso com nenhum terapeuta. Esta transformação que se deu em mim, foi mais forte que todos esses “issos” juntos e absolutamente silenciosa.
Foi um processo que irrompeu como um vulcão aparentemente inativo e, por isso, que eu escrevo que transformar-se é aceitar que o processo importa tanto e é tão potente quanto o resultado. É entender que a criação - seja de uma ideia, de um projeto, de uma relação ou de si mesma - nasce do atrito entre o que somos e o que ainda não sabemos ser. É nesse intervalo fértil, às vezes desconfortável, que algo novo ganha forma. Essa criação não vem da certeza, mas da pergunta sustentada.
E há beleza nesse movimento contínuo. Uma beleza que não se apoia na perfeição, mas na disponibilidade. Disponibilidade para errar, revisar, voltar atrás, mudar de ideia. Transformar-se é um exercício de presença: estar atento aos próprios limites, entender aonde as próprias dores ou o que não dizemos esbarra, mas também desejar as próprias expansões. É reconhecer quando algo já não serve e ter a delicadeza de aceitar (e agradecer) antes de soltar.
Em um mundo que valoriza a velocidade, a transformação pede pausa. Pede escuta. Pede coragem para não responder tudo de imediato. Porque aquilo que se transforma com verdade precisa de tempo para decantar, para encontrar sua forma justa. Não a mais vistosa ou a que a maioria adota ou espera, mas a mais honesta. E não é coisa de uma noite do último dia do ano velho para o primeiro dia de um ano novo. Não é mágica ou coisa de minuto e fogos. É sustentação, base, estruturação de como queremos ser e estar no mundo.
No fim, talvez transformar-se seja isso: um gesto contínuo de cuidado consigo e com o entorno. Uma escolha diária de seguir em movimento, mesmo sem garantias, confiando que o percurso - com suas dobras, imprevistos, dores, sustos, desvios e recomeços - é parte essencial daquilo que estamos nos tornando, silenciosamente.
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DICA: Há um livro em nosso catálogo - O manual do monstro, de Helena Duncan - que conta a história de Laura, uma mulher como tantas, que também passa por uma transformação profunda. Claro que, à primeira vista, tudo que dá início à sua jornada é menos silencioso do que ela gostaria, mas sozinha, dentro de seu próprio ritmo, ela encontra a sua saída, aquela que só a ela diz respeito e a mais ninguém. Vale a leitura: compre aqui.

Andréa Samico | @andreasamico é publicitária e profissional de marketing por formação, mas cria, escreve, edita e lê por ambição. À frente da Interseção descobriu nas histórias e nas expressões artísticas de todo tipo, a força dos universos criativo e da palavra. Apaixonada pela comunicação, pela escrita e pelo design, usa sua experiência para construir pontes e vive por atravessá-las.




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