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Coluna * Nossos Autores *



:: Em homenagem ao dia 21/03, Dia Mundial da Síndrome de Down, convidamos Ladimari Hoeppler, autora do livro “Meu nome é Miguel, qual é o seu?”, para um breve bate-papo, trazendo questões fundamentais para um olhar mais afetuoso e inclusivo em nossa sociedade.


“As vitórias alcançadas por uma criança com alguma deficiência foram concretizadas

porque uma mãe, um pai, um profissional dedicaram seu tempo e seu amor a ela!

Faça a diferença na vida de uma criança. Você pode!”



:: Ser uma autora de livros infantis foi algo que chegou de surpresa em sua vida, ou você já tinha esse desafio em mente?

Quero começar agradecendo a oportunidade e dizer que estou muito feliz de estar aqui com vocês dividindo um pouco da minha trajetória, até então de professora e agora como escritora de literatura infantil. Respondendo a sua pergunta, eu não tinha em mente esse desafio de me tornar autora! Porém, a escrita sempre esteve presente em minha vida, e eu também sempre acreditei na força e na importância da literatura como geradora de consciência e pensamento crítico. Um bom livro pode mudar as nossas vidas, as nossas percepções, os nossos olhares. Isso sim, sempre esteve na minha vida como um mantra.

:: Conta pra gente como surgiu a ideia de fazer um livro infantil sobre uma criança com síndrome de Down?

Durante alguns anos, eu visitava muitas escolas e percebia que a maioria das crianças não tinha o conhecimento do que era essa síndrome. Elas não entendiam porque alguns colegas que estavam incluídos na sala de aula tinham características e personalidades diferentes das delas. As crianças estavam cheias de dúvidas: Por que o meu colega joga os óculos no chão? Por que ele não quer falar? Por que ele não olha para mim?

Eram várias perguntas. E em algumas situações os professores não tinham antecipado à classe a chegada de um novo aluno com deficiência, que deveria se sentir incluído na turma. Essa angústia, essa ansiedade das crianças em querer saber o que estava por trás das atitudes de seus colegas, mexeu muito comigo. Foi então que surgiu o meu primeiro livro (versão em inglês) “My name is Ali. What is your name?” - lançado em Dubai no ano de 2020.

Levei “Ali” comigo para várias escolas, conversei muito sobre esse personagem e suas características. O diálogo com pais e professores também foi muito importante explicando a necessidade de conversas com a classe, antes de receberem alunos com deficiência, para um olhar mais acolhedor e receptivo à criança com síndrome de Down, e outras deficiências.



:: Sabemos que o livro “Meu nome é Miguel, qual é o seu?” é uma tradução adaptada para o mercado brasileiro do seu primeiro livro "My name is Ali. What is your name?" lançado em inglês. Os meninos Ali e Miguel são inspirados em personagens reais?!

Coincidentemente são dois meninos, mas poderia ter sido Maria, Antonia, Julia, - meninos e meninas; crianças e adultos - com síndrome de Down. Eu não posso dizer que Ali e Miguel foram inspirados em duas crianças, mas em pessoas que apresentam essa deficiência e que têm alguma limitação pontual, tanto em aspectos físicos e mentais quanto sociais. Elas existem no mundo inteiro. E foi por conhecer e saber um pouco das características deles que Miguel e Ali nasceram. Os livros foram inspirados na nossa realidade: Meninos e meninas que apresentam a síndrome de down e que estão por aí. Precisamos apenas olhá-los com mais afeto e respeito.

:: Você foi uma criança que teve acesso a leitura? Você acredita que esse é um caminho de aprendizado entre pais e filhos?

Na minha infância não tive muito contato com a leitura. Quando comecei a descobri-la eu já tinha uns 12 anos. Iniciei pelos livros de contos de fadas, com suas magias, bruxas e princesas. Foi nessa época que eu me coloquei muito próxima dos livros.

O livro para mim sempre trouxe e continua trazendo muitos ensinamentos. Ele ajuda na nossa construção psíquica e emocional. Em muitos livros podemos nos identificar e eles podem nos oferecer conteúdos, até então, desconhecidos.

Lembro-me de quando eu tive meu filho, nossa casa logo se encheu de livros. E cada vez que eu saía para uma loja passava numa livraria. Comprava mais e mais. Nós líamos diariamente, no mínimo duas vezes por dia. Acredito que foi essa experiência, que gerou nele o desejo de aprender a ler. Muitas vivências foram construídas ao longo da caminhada dele através da leitura, dos nossos momentos de mãe e filho, quando sentávamos para ler juntos.

A leitura influencia no desenvolvimento cognitivo da criança. É um momento onde há uma interação, uma cumplicidade entre pais e filhos. Experiência que trabalha a emoção, a comunicação, o afeto através de perguntas e respostas. Isso sim cria uma conexão familiar.

Atualmente, na correria do dia a dia, e na disputa do espaço com as telas, as leituras vão ficando para depois. Mas continuo acreditando que se, desde a tenra idade, os pais conseguem proporcionar esse momento de leitura para os filhos, valores significativos vão ser construídos. Se cada pai ou mãe puder dedicar dez minutos do seu dia a essa atividade com seu filho, já é maravilhoso!


:: Conta para os leitores, em que momento da sua vida o seu olhar se voltou para as pessoas com síndrome de Down?

Na época eu estava com mais ou menos 18 anos quando comecei a perceber que essas pessoas não eram valorizadas, e que não havia um olhar para elas. Eram invisíveis para a sociedade. As famílias geralmente mantinham essas crianças em casa, isoladas. E quando, por um acaso, eu os encontrava estavam sempre calados, falavam pouquíssimo. Interagiam quase nada. Então, uma inquietação em mim se fez presente! Eu tinha a certeza de que aquelas pessoas, mesmo com limitações, fossem elas quais fossem, tinham potenciais e habilidades que estavam apenas adormecidas. Nós, enquanto seres humanos, deveríamos descobrir essas potencialidades e proporcionar momentos e situações onde as pessoas com deficiência pudessem estar incluídas. Foi então que recorri aos estudos! Me inscrevi e passei para o curso de Educação Especial da Universidade de Santa Maria. E desde as primeiras aulas meu olhar foi totalmente direcionado para as pessoas com síndrome de Down.

Li muito, pesquisei bastante e sempre investiguei os potenciais, as habilidades, as limitações, os desafios e barreiras do comportamento desses indivíduos. E aos poucos eu fui me dando conta que com apoio e estímulo eles poderiam se desenvolver cognitivamente, socialmente e emocionalmente.

Agora com 25 anos de formada, posso ver os resultados positivos. Pessoas que se casaram constituindo famílias, dirigem automóveis, estão no mercado de trabalho. Houve um avanço significativo num período curto de tempo. Então a gente descobre que eles têm potencial, mas que precisam “pertencer”, e nós como sociedade precisamos buscar um lugar para que eles possam participar.

Vejo muitos profissionais auxiliando, seja na fonoaudiologia, fisioterapia, terapia! E quando dão as mãos e trabalham com o objetivo de fazer com que um bebe com a SD vá progredindo, nós vamos ter adolescentes e adultos mais capazes. Desde então o meu olhar tem sido muito positivo para cada um deles, e eu fico muito feliz em saber que todos os avanços alcançados foram por méritos de profissionais e familiares que nunca desistiram, e buscam oferecer, cada vez mais, o suporte necessário.


:: Trazer a temática da SD para a literatura infantil é para você um caminho mais efetivo de educação e conscientização da sociedade atual e de gerações futuras, sobre o tema?

Acredito que a literatura de uma forma geral, e em particular a infanto-juvenil, está favorecendo positivamente essa geração. No caso da nossa história - "Meu nome é Miguel, qual é o seu?" - temos um livro interativo onde professores, pais ou quem estiver mediando vai perceber que a cada página questões vão surgir, provocando a interação com as crianças. E serão essas interações que farão com que os pequenos leitores, ou apenas ouvintes, conheçam um pouquinho mais as necessidades e possibilidades de quem tem a síndrome de Down.

A criança passa a entender a importância de auxiliar, de brincar, de incluir o colega! Vai perceber porque a comunicação não está completamente formada, ou porque aquela criança precisa de mais atenção, mais estímulo - diferente ou igual a ela.

É importante lembrar que os livros que estão abordando a questão da deficiência, não são só para mostrar que a deficiência e as diferenças existem! Mas sim para mostrar que todos estamos num mesmo ambiente, em que todos podemos caminhar juntos, e que para isso ocorra, essa participação coletiva deve existir.

O leitor vai ser “convidado” a pensar onde ele pode auxiliar o outro. É um aprendizado constante, é um aprender e ensinar. Quando eu for paciente com meu colega ele também vai ter paciência comigo. É uma caminhada juntos. E a literatura infantil, hoje, está maravilhosa! Trazendo um conteúdo que pode auxiliar de uma forma muito lúdica os nossos alunos.


:: Como “Meu nome é Miguel, qual é o seu?” pode ajudar pais, professores e pequenos leitores a lidar com o universo das pessoas com deficiências?

Como eu disse antes, essa é uma obra interativa, de fácil leitura. Miguel é um menino de dez anos que está contando a história da vida dele, apresentando-se com muita naturalidade nas coisas que gosta e não gosta de fazer, comer e brincar. E ele também quer conhecer seu leitor. E é por isso que além de contar sua própria história, ele faz perguntas. Miguel traz o tema da síndrome de Down, apresenta suas necessidades e o seu desejo de ser incluído na sociedade. Reafirma que basta um pouco de paciência e apoio para que pessoas como ele possam ter uma vida dita “normal”. Eles precisam que a gente acredite no potencial deles.


“Meu nome é Miguel - qual é o seu?” É um livro para todas as idades, em que não só pais e professores, mas todos nós poderemos aprender juntos. Apresente ao seu filho ou alunos as possibilidades ilimitadas das pessoas com deficiência.

Então, fica aqui uma dica e se você quiser conhecer a história do Miguel, não perca tempo. Na Interseção você pode adquirir o seu livro (clique aqui) e recebê-lo em casa para desfrutar dessa história interativa com qualquer pessoa da sua família. Juntos vocês vão gostar de aprender um pouquinho mais sobre a síndrome de Down.


Ladimari Toledo Hoeppler | @ladimarihoeppler vive hoje no Oriente Médio, com o seu marido e filho e há mais de 20 anos vem se dedicando à educação e orientação de crianças com síndrome de Down, autismo, dentre outras deficiências. Foi fundadora do Dubai Down Syndrome Center – (DDSC) e atualmente colabora no Dubai Center for Special Needs (DCSN). Este é o segundo livro que escreve sobre síndrome de Down, e foi inspirado no seu título anterior lançado em inglês, “My name is Ali. What is your name?”.

ARTE: Andréa Samico | @andreasamico


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