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Sonhos, exercício da escrita e do pensar

por Patrícia Farias | @patricia.dbx



:: Era uma escada azul no meio de uma sala. Daquele tipo que parece até um cubo de madeira. De um lado tem os degraus, do outro superfície lisa que você encosta à beira do palco de teatro para subir. Um sofá e dois homens sentados numa conversa formal. Esse era o cenário.

Narrativa de um sonho, daqueles!


Sabe, quando a gente acorda e se pergunta que loucura foi aquela. Acordei num susto e sem esperar o despertar apropriado, peguei lápis e papel e fui anotando.


Comecei a fazer terapia dos sonhos, e isso mudou toda a minha forma de ver, ou melhor de sonhar. Mas porque alguém precisa fazer terapia para contar seus sonhos? Também nunca tinha ouvido falar, até que sonhei com um amigo e na ansiedade de lhe-contar, ele entendido que é do tema, me disse: “Porque você não procura um terapeuta para analisar seus sonhos”. Vou te indicar um.


Hein, será isso mesmo? A curiosidade e a vontade de entender o que se passava, foi a motivação necessária. Segui o conselho dele sem pestanejar.


Desde então, sonhar não é mais loucura. Já acordo escrevendo. Confesso que só porque sei da necessidade de lembrar dos sonhos, por várias vezes esqueço o danado. Logo eu, que nunca tive problema para relembrá-los. Dorme uma noite aqui em casa, ou vem para o café da manhã que você vai entender do que estou falando. Aventuras, tristezas, alegrias. Visitas aqui e ali. Histórias coloridas e cheias de detalhes. Vou contando tudo entre o café e o pão com manteiga. Mais recentemente, escrevendo tudo, e todos.


E foi num desses dias de terapia, dois ou três sonhos no papel, e a terapeuta disse que eu escolhesse um. “Na ordem cronológica”, perguntei. Ela disse: “Não, escolhe aquele que mais te marcou”.


Então, comecei por esse tal da escada azul no meio da sala, três ou quatro degraus, que não me levavam a lugar nenhum. Eu subia e quando chegava no degrau mais alto e mais largo pulava dali e voltava para o pé da escada para subir novamente. Era um ciclo entediante, cansativo, sem sentido nenhum. No ambiente dois outros personagens, que não vêm ao caso agora. Até porque, depois de anotar dezenas de linhas enquanto ouvia a minha narrativa, a terapeuta ficou só na observação da escada.


Perguntas aqui e ali. Conversa vai, conversa vem. E ela me diz que achava bom eu desenhar. Argumentou que não ia falar mais nada até a próxima consulta.


Desligamos.


Modernidades pós pandemia, a consulta é on-line. Fiquei ali na cadeira, olhando a tela preta do computador, como quem ainda esperava alguma coisa.


Ontem, ela mandou mensagem e disse que eu deveria ler sobre o mito de Sísifo. Me apressei. Li três artigos filosóficos, assisti meia dúzia de vídeos, e terminei a noite com a imagem de um homenzinho empurrando penosamente uma pedra morro a cima. A doutora disse que eu tinha que ler e desenhar. Achei melhor escrever, afinal sou mais das palavras do que dos rabiscos.


Na pesquisa entendi que Sísifo, personagem da mitologia grega, foi homem rico, astuto e imperfeito - como todos nós um pecador de primeira – tramou contra os deuses. E como quem planta, cedo ou tarde colhe, Sísifo foi condenado por Zeus a empurrar uma grande pedra ladeira a cima, eternamente. Quando ele chega ao topo é vencido pela exaustão e deixa que a pedra role ladeira a baixo. No dia seguinte, ele desce para buscar a pedra, e retoma em seu esforço - serviço árduo - levando-a de volta ao alto do morro.


O mito foi retomado em 1941 em um ensaio do filósofo Albert Camus para explicar a condição humana da época. A teoria, pelo que entendi, é de que o homem pode passar a vida em movimentos mecânicos e repetitivos. Sem encontrar um sentido para os seus dias, acaba se deparando com um mundo inexplicável e angustiante. Ele descreve sobre os absurdos da vida nos sistemas de produção, influência política e religiosa. E que nem sempre contribuem para que o homem encontre a sua natureza. Que faça escolhas próprias e que tenha responsabilidade e discernimento do seu papel na sociedade.


Penso que o filósofo faz desse paralelo entre o homem contemporâneo e o personagem da mitologia grega um alerta aos sintomas de uma vida frustrada. A vida pode ser preenchida pela mesmice, ou pela criatividade. Nossas escolhas mais ou menos presente. Nossas pedras leves ou pesadas. Um despertar atento ou sonolento.


No sonho, um alerta do inconsciente!


O tempo urge, é mais que hora de refletir. O ano apenas começou, e nossos desejos não devem se limitar apenas a noite do réveillon. É exercício diário da escrita e do pensar. Qual será a pedra que a gente insiste empurrar? Qual sentido estamos buscando? Próxima consulta na semana que vem. Não perco por nada!



Patrícia Farias | @patricia.dxb é jornalista com Pós-graduação em Cultura Teológica. Faz da habilidade de comunicação o ponto de encontro com o outro. Morou no Oriente Médio, onde se dedicou à coordenação de trabalhos sociais e de educação. Nessa experiência plural, reúne a escrita e a oratória para construir histórias, e assim poder contá-las.



ARTE: Andréa Samico | @andreasamico

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