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Memória de um Natal

por Patrícia Farias | @patricia.dbx


:: Meu pai sempre foi um assíduo leitor de jornal, daquele impresso que deixa a gente de mão manchada e que tínhamos que ir buscar na banca. Naquele tempo, assinatura era para a elite. Na nossa casa nunca faltou um exemplar, da esquerda, é claro. Lembro quando ele chegava do trabalho, em geral, tarde da noite. Trazia o jornal e me entregava como troféu: “Leia filha, tem muita coisa importante acontecendo nesses dias”. Estávamos na década de 80, a política fervilhando, a economia retraída, o Natal não seria tão farto.


Papai muito cedo desconstruiu, para mim e meu irmão, a imagem do “bom velhinho” de barba branca e roupa vermelha! Acho até que me ressinto, lembrando dos meus primos fazendo cartas para Papai Noel. Não lembro de ter endereçado nenhuma carta ao Polo Norte. Mas ele tinha seus motivos e eu respeito!


Mamãe, esforçava-se nos preparativos para que o Natal se fizesse presente em nossa casa! Aqueles jornais acumulados num canto da lavanderia teriam também um destino natalino. Todas as tardes, durante a primeira semana de dezembro, sentávamos em volta da mesa fazendo dobras e recortes das folhas envelhecidas. Começávamos cortando pequenos quadrados, mediam cerca de 10 cm. Depois de uma maneira artesanal, mamãe juntava três ou quatro pedacinhos e torcia! Girava para cá e para lá! Pareciam flores, estrelas, folhagens. E com uma cartolina dura, ela fazia um grande cone, onde colava cada papelucho torcido.


Lembro a primeira vez que fizemos isso. Ela, ia contando sobre sua adolescência muito pobre, as memórias de um natal descolorido, a primeira árvore de papel na casa dela.


Entre um giro e outro, uma cola e uma fita adesiva, o pinheiro natalino ficou pronto. Tamanho esforço para ver amontoado ali histórias passadas, palavras impressas, letras acumuladas. Tudo em preto e branco - encardido. “Vai ficar assim?”, perguntei. Mamãe percebendo meu descontentamento, disse que logo compraríamos um spray dourado para pintar, e a árvore ficaria linda. Ela me garantiu! E ficou. Tínhamos até luzinha pisca-pisca.


Na segunda semana, mamãe organizava uma “novena”. Nunca mais ouvi essa palavra. Tenho saudades dessa e de outras do repertório dela. Recebíamos as vizinhas em casa para refletir acerca do Evangelho. Tinha sempre alguém que a ajudava nisso, uma freira, um padre - amigos do papai - que também liam aqueles jornais. Uma esquerda cristã. Talvez, por isso, o presépio fosse mais importante que o velho Noel. Findavam os dias de novena e já tínhamos a cena natalina da gruta pronta: Três Reis, Maria, José, Gabriel, os animais e a manjedoura. Comemorávamos com um cafezinho com bolo, muito simples, mas cheio de afeto.


Faltavam poucos dias para a grande noite, e sabíamos que logo chegaria um convite muito esperado, para o “natal da empresa”. Papai era mecânico de refrigeração numa multinacional, e em retribuição ao ano de trabalho duro, ofereciam uma grande festa para os filhos de funcionários. Ah que alegria! Ganhávamos presentes do Papai Noel, mesmo sem que nós tivéssemos escrito a nossa carta. Era um dia da família, de brincadeiras, de show circense, e de muitas guloseimas. Voltávamos para casa exaustos, mas felizes carregando nossos presentes nos braços.


Gostávamos da véspera natalina! A comida cheirava do forno, o pudim de leite não podia faltar. Rabanadas eram fritas poucas horas antes do jantar. Papai não deixava de comprar o “queijo bola” - era o favorito da minha mãe - do tipo queijo do reino que vinha dentro de uma lata em formato de bola. Ela o recebia como um presente, que chegava uma vez ao ano. Comeríamos juntos, sorrindo e celebrando a vida!


Casa limpa, mesa posta, o long play na vitrola tocava Roberto Carlos. Papai cantarolava, puxava mamãe para um abraço dançado. Estávamos todos vestidos com a roupa nova, tínhamos o brinquedo do papai Noel da empresa, uma árvore de jornal com luzinhas. Alegria genuína.


Pausa. Hora da missa. Não tinha negociação! Íamos pelo caminho - eu e meu irmão - reclamando. Coisas do papai, que honrava a memória de infância em Recife, quando seguia com sua mãe para a Missa do Galo. Mais tarde, então, viria a comilança, a dança, os brindes! Hoje, posso compreender o que ele nos ensinava.


Assim os dias de dezembro se passavam, um verdadeiro preparativo do coração. Memórias do esforço, do compartilhar, do honrar, de confraternizar. Aprendizado e ensino. Na minha casa foi assim. Recordo com tamanha gratidão essas cenas calorosas de profundo afeto em minha infância.


Em poucos dias, teremos o Natal! Minha árvore está montada, mas o presépio ainda na caixa. Preciso correr. Fiz pausa para escrever, para resgatar a luz dos dias de dezembro que a gente anda esquecendo. Nesse esforço de olhar a manjedoura, a natureza ao redor dela, a mensagem que Ele trouxe.




Patrícia Farias | @patricia.dxb é jornalista com Pós-graduação em Cultura Teológica. Faz da habilidade de comunicação o ponto de encontro com o outro. Morou no Oriente Médio, onde se dedicou à coordenação de trabalhos sociais e de educação. Nessa experiência plural, reúne a escrita e a oratória para construir histórias, e assim poder contá-las.



ARTE: Andréa Samico | @andreasamico

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