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Cena de Infância

por Andréa Samico | @andreasamico


:: Eu tenho isso de muita gente em volta. Sempre foi assim. Será que a gente aprende na infância essa coisa de se rodear de gente? Bem, não sei. Eu aprendi.


Vim de família pernambucana, numerosa, festeira, gargalhadeira, barulhenta que só. Povo que fala alto senão nunca é ouvido. Gente que enche a mesa de comida de todo tipo: seca, molhada, com farofa, com fumaça, com chamego. Hmmm…tão gostoso! Além da algazarra dos primos, ouço agora, bem aqui na memória, a bateção dos pratos, o puxar das cadeiras, o suco da fruta feito na hora no liquidificador…zum-zum-zuuuummmmm…”Henrique, meu filho, deixa teu irmão…ô aperreio”…Eram assim os dias em Recife, quando ia a família toda na Granja de Tio Bado, que se chama Ivaldo, mas esse é um nome muito sério para um tio como ele.


Tio Bado nos aconchegava na Granja, que na verdade era um sítio, mas esse era um nome muito certinho pra uma terra como aquela. Eu gostava e achava engraçado, porque chegava todo mundo de uma vez, mas ninguém se encontrava na estrada. Até hoje, quando penso, não consigo entender como era isso. Aquele amontoado de carros surgia simplesmente tudo junto no horizonte. Do nada. Sem ninguém ver ou se esbarrar pelo caminho. Em mim, sinto que a gente não via por conta da pressa de chegar, de abraçar, de dar cheiro, contar piada, sossegar um pouco com aqueles muitos que vieram nascendo da barriga generosa de minha avó, depois das barrigas corajosas das filhas de minha avó e ainda das mulheres fortes que foram casando com os filhos de minha avó. Não lembro de contar, mas olhando assim…oxe…era muita gente e aquilo, aquela confusão de coração se batendo, enchia meu corpo todo de uma euforia que fazia minhas pernas saírem do chão, dando aqueles saltitos de alegria, sabe como?


A Granja ficava num terreno imenso. Tinha cachorro, cavalo, porco, galinha…tudo solto. Tinha muito passarinho enamorado do meu tio…tudo preso. Eu achava já naquela época que amor daquele tamanho e naquela quantidade jamais devia ficar preso, mas era mania dele. Mania que ele tinha de deixar a gente solto e prender os passarinhos. Eu ficava contrariada e nem sabia direito o que era liberdade, mas já sentia que era uma coisa que devia ficar solta.


A gente ali se soltava como a liberdade, debandava ribanceira abaixo, com os pés no barro, os cabelos desgrenhados, o corpo soltinho no embalo e os olhos zureteados só querendo chegar no destino: um poço de rio fundo, de água limpíssima, com uma cachoeira cheia dos aconchegos e um trampolim, que Tio Bado mesmo colocou no alto da pedra pra ensinar seus meninos a saltarem aos rodopios beeem lá de cima. Que rebuliço que era! Normalmente a gente descia sozinho, brincava e depois subia, mas nesse dia era aniversário de minha avó e ela tava fazendo uma idade que já não me lembro direito, só sei, isso posso dizer, que era muita.


Então, todo mundo desceu pra fazer festa no poço. Era tanta alegria ali que parecia que o verde da mata tinha ganhado mais vida, as árvores estavam saculejantes como num forró e a família tava toda assanhada pra pular do trampolim. E tu pensa? Pulou. Cada um pulou do trampolim festejando a minha avó. Até minha avó do alto de sua muita idade pulou do trampolim pra festejar a própria vida. E pulou gargalhando, soltinha no ar, aquela véinha toda doida, com o cabelo todo fora do lugar. Ah!! Que momento! Minha alma sorriu largo ali e agora, só de lembrar.


Depois dessa folia, subimos de volta devagar, numa tagarelice incansável. Já era bem tarde. Comemos com o riso solto na mesa e depois nos arrastamos feito guaiamuns, assim meio de lado, até as redes, os tapetes, as cadeiras de balanço espalhadas na varanda. O dia acabava. Alguém pegou o violão e começou a tocar e outro alguém, amostrado que só, começou a cantar. A noite chegou e as estrelas iluminaram o céu. Lembro tanto desse momento. De ter sentido uma paz dentro de mim. De ter olhado em volta, me ver rodeada por aquele amor todo e sentir que isso me preencheu com as certezas daqueles laços. De ter encarado o céu de novo e ver que ele era como a gente ali: um monte de estrelas cheias de luz a piscar juntas, num efeito tão mágico, tão vibrante. Era muita a lindeza desse meu pensamento e eu sentia meu coração bater calmo. Desejei não esquecer esse dia. Desejei isso naquele momento, bem forte em mim.


É por isso que até hoje me rodeio de gente. Pra me sentir em paz, enlaçada em amor, brilhando uma luz conjunta, mesmo que cada uma pisque no seu próprio tempo a cada vez. Eu bem disse isso no começo dessa história. Aprendi que é tão bonito quando tudo acontece desse jeito assim e eu só peço, nessa minha vida, que esse jeito possa ser sempre, de preferência, bem juntinho de mim.




Andréa Samico | @andreasamico é publicitária com MBA em Marketing. À frente da Interseção descobriu nas histórias e nas expressões artísticas de todo tipo, a força dos universos criativo e da palavra. Apaixonada pela comunicação e pelo design, usa sua experiência para construir pontes e vive por atravessá-las.




ARTE: Andréa Samico | @andreasamico

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